LITERATURA

O escritor que não era

Em 'O escutador', Carlos Marcelo faz tributo à ficção literária com a história de aspirante a autor cuja função é memorizar histórias de verdadeiros escritores

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Ademir Lins tem uma profissão curiosa: é pago, basicamente, para não deixar milhares de leitores a ver navios. Chamado de escutador, é o encarregado de conversar com autores de longas sagas literárias folhetinescas sobre os rumos da história. Assim, caso o autor venha a desaparecer, as ideias dos livros ainda não publicados sobrevivem e podem tomar forma.

Mas Ademir é, também, um desconhecido e um deslumbrado. Chegou do Norte numa Belo Horizonte mítica da década de 1950, quando era conhecida como a Cidade dos Escritores. Terra habitada pelos dois Drummonds (Carlos e Roberto), por Guimarães Rosa e por outros ícones da literatura brasileira, a capital mineira premiava o Brasil com autores que entrariam para o cânone nacional. Ademir queria, no fundo, ser um deles. E encontrou em Virgínia Lemos uma generosa editora.

O escritor mineiro Eduardo Frieiro passeia no Parque Municipal de BH
O escritor mineiro Eduardo Frieiro está presente na trama de 'O escutador', livro de Carlos Marcelo. Nesta foto de 1979, Frieiro passeia no Parque Municipal de BH Jane Faria/Arquivo EM/D.A Press/1979


Assinado por Ademir, “O escutador” teria sido editado uma única vez e acabou guardado até ser resgatado pelo jornalista e escritor Carlos Marcelo, organizador da narrativa das memórias do aspirante a escritor. O texto é também celebração de um mundo literário que representa época e cena importantes para a realidade brasileira dos anos 1950.



“O escutador” se passa em 1958, contém três linhas narrativas, muita metalinguagem e um tom que mimetiza a escrita de toda uma geração de autores. Também oferece aos amantes de narrativas de mistério uma reviravolta capaz de perturbar os leitores, mistura intrigante de ficção e realidade que pode ser lida como homenagem à capacidade da literatura de criar mundos imaginários.

A edição com duas capas e reproduções fac-símile de manuscritos é a porta de entrada para o livro. Assinada pela Editora Montanhesa, detalhe ao qual o leitor deve ficar atento, traz uma série de notas de rodapé que integram a narrativa e não devem ser evitadas. “A própria edição faz parte da narrativa”, avisa Carlos Marcelo.

Citado, entre outros, ao longo do livro, o escritor Eduardo Frieiro, autor de “A ilusão literária”, aparece como uma voz sempre disposta a reforçar os atributos da capital mineira como “cidade dos escritores” e as pretensões de Ademir Lins.

Como se estivesse o tempo inteiro a justificar as ambições do personagem, Frieiro, um dos poucos que não deixaram Belo Horizonte ao se consolidar no meio literário na década de 1950, é quase um personagem da narrativa.

“Ademir é seduzido, a palavra é essa, é inebriado, hipnotizado por essa ilusão literária que o Frieiro fala de viver na cidade dos escritores, quando Belo Horizonte ainda era a cidade dos escritores. Só que, quando ele chega, ela já não é mais, porque todos já foram para o Rio e para São Paulo. Mas ele vai buscar a ilusão literária citada pelo Frieiro, que é um dos poucos que não saíram”, explica Carlos Marcelo.

Pesquisador e autor de seis livros, entre eles a biografia “Renato Russo – O filho da revolução” e o romance “Os planos”, o jornalista lembra que a literatura de bolso já foi praticamente uma indústria no Brasil. Consumidas em larga escala e produzidas de forma folhetinesca, com sagas policiais ou de ficção científica distribuídas por dezenas de volumes, essas narrativas tinham público cativo. E, muitas vezes, eram assinadas por autores com pseudônimos.

“Esses livros de bolso equivaliam à Netflix: eram edições muito populares, feitas em papel-jornal, baratas e consumidas por um grande público. Muitas dessas narrativas eram fragmentadas em volumes diferentes, então duravam anos”, explica o organizador, cujos primeiros contatos com a literatura se deram por meio dessas edições, que abasteciam a biblioteca do avô.

“Conheci esses livros e sempre fiquei intrigado sobre o que tinha acontecido com esses autores. E descobri, mais tarde, já adulto, que boa parte dessas edições eram assinadas com pseudônimos estrangeiros, mas escritas por autores brasileiros. Isso me levou a pensar: onde começa a ficção?

Em “O escutador”, Ademir deve acompanhar exatamente um desses autores, mas sofre com o fato de ficar relegado aos bastidores. Atormentado por duas paixões – uma de carne e osso e outra a ser concretizada no papel –, ele decide mergulhar no ofício. E, sem muita solenidade, avisa logo no início: “Minha história começa como tantas outras. Mas, pela primeira vez, me pertence e preciso contá-la com as minhas palavras.” O que se segue é uma costura de memórias, citações e ficções folhetinescas até para um escutador.

Capa do livro O escutador
Impressões de Minas


“O ESCUTADOR – AS HISTÓRIAS DE ADEMIR LINS”

De Carlos Marcelo
Editora Montanhesa/Impressões de Minas
216 págs.
R$ 80

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