A polarização pode afetar a saúde mental? Psiquiatra analisa fenômeno
psicoterapeuta Marcos de Noronha se debruça sobre o comportamento que limita a convivência entre os indivíduos
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Siga noA polarização, fenômeno caracterizado pela concentração de ideias e opiniões em extremos opostos, tem se tornado cada vez mais intensa nos últimos anos. Comumente associada à política, ela sempre existiu, motivada pela diversidade cultural e pelas diferenças individuais. No entanto, o problema não está apenas nas opiniões divergentes, mas na dificuldade crescente de dialogar de forma saudável. Esse cenário se agrava com as redes sociais - afetando até mesmo reuniões familiares.
É nesse contexto que o psiquiatra e psicoterapeuta Marcos de Noronha publica seu mais recente livro, "Polarização - Sintoma de uma Doença Social", previsto para lançamento em junho na Espanha e Argentina, e para setembro em Tóquio, durante o Congresso Mundial de Psiquiatria Cultural. No Brasil, ele promove o workshop "Superando a Polarização", onde discute os impactos desse fenômeno na saúde mental e nas relações interpessoais.
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A motivação para o novo livro veio dos feedbacks recebidos de um capítulo de sua obra anterior "Cérebro e as Emoções: Analogia entre Rituais e Psicoterapias", que explora a relação entre o funcionamento do cérebro e os processos emocionais. "Foi um dos temas que mais despertou a curiosidade dos leitores, por isso decidi aprofundá-lo", explica.
Polarização como patologia
Para o psiquiatra, a polarização vai além de um simples conflito de ideias. Ela pode ser entendida como uma patologia social, pois gera comportamentos rígidos e inflexíveis. "Não importa a classe social, a idade ou o nível intelectual, a polarização afeta pessoas com dificuldades emocionais de lidar com adversidades", afirma. Segundo ele, esse processo está diretamente ligado à ansiedade e à neurose, mecanismos que fazem com que o indivíduo perceba qualquer visão oposta como uma ameaça.
Outro aspecto preocupante é a formação de "bolhas" reforçadas pelo consumo direcionado de informações nas redes sociais. "O contato predominante com conteúdos que validam crenças preexistentes faz com que opiniões divergentes sejam automaticamente rejeitadas", diz Marcos. Assim, a sociedade se divide cada vez mais em grupos isolados, incapazes de estabelecer um diálogo construtivo.
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A polarização não apenas dificulta o convívio social, mas também influencia a fisiologia do cérebro. "Em um cenário altamente polarizado, a pessoa pode entrar em um estado emocional extremo, no qual perde o raciocínio lógico e o bom senso", explica o psiquiatra. Esse fenômeno é chamado de "imunização cognitiva", um mecanismo de defesa em que o indivíduo se fecha completamente para informações que contradizem suas crenças.
Essa reação pode ser comparada a um quadro de transtorno obsessivo-compulsivo. "Pessoas com padrões rígidos de pensamento tendem a se apegar às suas verdades como se fossem vitais para sua sobrevivência", pontua. Isso explica por que muitos se recusam a aceitar fatos que desconstroem suas idealizações, seja sobre líderes políticos, figuras públicas ou crenças pessoais.
Fenômeno no mundo
O psiquiatra tem estudado como a polarização se manifesta em diferentes países. Durante um evento na Holanda, ele observou que o tema mais sensível entre os participantes europeus era a guerra entre Putin e Ucrânia. "Foi o que mais despertou emoções fortes e impediu o diálogo", conta. Já no Brasil, a divisão mais acentuada está na política, especialmente entre apoiadores de Bolsonaro e Lula. "Além disso, em algumas regiões, a religião também gera grande polarização", acrescenta.
Para além de tratar do problema nos livros, o psiquiatra trabalha o tema em seu workshop, onde começa a examinar as emoções básicas que faz com que os indivíduos alimentem ou não a polarização. Segundo ele, nunca ninguém saiu ferido ao confrontar esses temas delicados nos eventos, já que destaca a importância da escuta ativa. "Lidar com a polarização exige autonomia emocional e flexibilidade cognitiva. Quanto mais saudável emocionalmente for uma pessoa, mais aberta ela estará para o diálogo, sem transformar diferenças em inimizades."