“A vida do jogador não vale nada?”, escreveu o atacante Marcelo Moreno, da Seleção Boliviana e do Cruzeiro, em um post no Instagram na terça-feira (15/6), ao comentar o primeiro balanço divulgado pela Conmebol de contaminados pela COVID-19 durante a Copa América, que começara dois dias antes.
Na ocasião, foram detectados 52 infectados, entre delegações participantes – o próprio atacante, inclusive –, árbitros e colaboradores da entidade. Nesta quinta-feira (dois dias depois, portanto), os números foram atualizados, pulando para 65 testes positivos para o novo coronavírus.
“Obrigado a vocês da Conmebol por isso. A culpa é totalmente de vocês. Se morre uma pessoa, o que vocês vão fazer?”, dizia o restante do questionamento do jogador na rede social, naquele dia.
Leia Mais
Tem fura-fila da vacina no esporte. E muita gente acha que está tudo bemQuem quer jogo de futebol devia pressionar por vacinaNo Brasil trucidado pela COVID-19, só Lisca deu a cara a tapa no futebolGreve dos jogadores do Cruzeiro é um ato legítimo e históricoDe Ítalo a Portela, Mayra e Rebeca: as lágrimas derramadas em TóquioTóquio vai ter de driblar a COVID para garantir uma abertura inesquecívelA luta do Cruzeiro não é pelo G-4 da Série BNeuer, Goretzka e Meunier se unem contra o preconceito e a UefaPor isso, era de se elogiar o que deveria ser corriqueiro: o simples fato de o atacante exercer seu papel de cidadão.
Pois não demorou muito, e o post foi apagado. O que veio a seguir, aí sim, não surpreendeu ninguém.
No mesmo dia, a Comissão Disciplinar da Conmebol anunciou ter aberto um procedimento contra Marcelo Moreno, afirmando que ele infringiu o código de conduta ao atacar a “lealdade, integridade e esportividade” da competição.
A entidade que comanda o futebol sul-americano deu o prazo de dois dias para que o jogador se defendesse. Se fosse considerado culpado (???), poderia sofrer advertência, multa ou até perder a premiação, em caso de conquista do torneio.
Eis que, nesta quinta-feira (17/6), Moreno soltou um comunicado para “contextualizar” o post da discórdia. Disse que não “foi uma declaração textual” dele e que não teve a intenção de gerar polêmica, ofender ou questionar a Conmebol, “nem suas autoridades”.
Ainda: segundo o jogador, o post nem teria sido feito por ele. “Lamentavelmente, minha preocupação pela situação do meu contágio por COVID-19, que me impediu de jogar com minha querida Seleção Boliviana na estreia da Copa América, e pela pandemia em geral que nos afeta a todos foi interpretada de maneira incorreta por quem é encarregado de realizar minhas comunicações públicas.”
E ele seguiu “contextualizando”, com as seguintes palavras: “Entendo que a Conmebol tem feito um esforço por organizar a Copa América, para manter a competitividade e o rendimento esportivo das seleções, visando o Mundial, enquanto a mesma situação da pandemia nos gera situações que são complicadas para relevar. (...) A todas as pessoas que têm se sentido ofendidas pelo ocorrido, pelo bem da minha seleção e de todas as pessoas que amam o futebol, espero que minhas palavras sirvam para trazer tranquilidade e que o torneio continue oferecendo alegrias em meio a momentos adversos que estamos vivendo”.
Para bom entendedor, não é preciso mais. Marcelo Moreno teve seus motivos para emitir tal nota. Não é difícil imaginar quais. Ele não pode dizer, mas a gente pode: foi censurado, pressionado publicamente e, para não pagar o preço, pediu desculpas por algo que não fez. Assim funcionam os regimes autoritários.
No linguajar do futebol, o que era um golaço virou uma bola fora.
Com todo o avanço que vivemos atualmente, em termos de sociedade, é impressionante que fatos assim ocorram. Que o direito de se expressar seja coibido. E o pior: de se expressar por causas legítimas.
Infelizmente, não é “privilégio” do futebol sul-americano. Na Europa, um episódio tem chamado a atenção, e acredito que deva ser estudado por sociólogos de lá. Jogadores que estão fazendo gestos antirracistas sendo vaiados por torcedores e, de certa forma, questionados por seus pares.
A Seleção da Inglaterra foi a primeira a sentir na pele. Ao repetirem o gesto de se ajoelhar (copiado de atletas ativistas após o assassinato do negro George Floyd por um policial branco, nos EUA, no ano passado) antes de amistosos preparatórios para a Eurocopa, em Middlesbrough, os jogadores foram vaiados pelos torcedores do próprio país.
Durante a Euro, a crítica se repetiu na partida entre Bélgica e Rússia, em São Petersburgo, quando os belgas se ajoelharam e foram vaiados pela torcida local. Os jogadores russos ficaram de pé.
Seleções de Croácia e Holanda também avisaram que não iriam aderir ao movimento.
Veja bem: uma manifestação pela igualdade de raças. Contra o preconceito. Preceitos básicos, que deveriam estar assimilados em toda e qualquer sociedade. Mas que são desvirtuados por motivos torpes. É surreal – e muito triste.