As teorias da conspiração sobre a morte do líder nazista já renderam livros, filmes e dezenas de documentários. Segundo elas, Hitler não teria se suicidado na tarde de 30 de abril de 1945 em seu bunker, em Berlim, quando se deu conta de que seria impossível resistir às tropas russas e sobreviver ao fim da Segunda Guerra Mundial. Com licenciatura em história, o jornalista Jean-Christophe Brisard nunca acreditou em nenhuma delas, mas também se perguntava por que havia tanta falta de provas em relação ao fim do ditador alemão. Essa faísca acendeu a investigação que resultou no livro A morte de Hitler, lançado em 2017 na França, que agora chega ao Brasil.
Todas as teorias se baseavam no fato de os russos, os primeiros a chegar ao bunker, nunca terem apresentado provas definitivas da morte de Adolf Hitler. Donos dos únicos fragmentos de restos mortais do nazista – um pedaço de crânio incinerado e parte da arcada dentária com alguns dentes –, eles jamais permitiram exames capazes de comprovar a origem dos ossos.
Somente em 2016 o mistério foi encerrado, quando Brisard e Lana Parshina, jornalista russa, revelaram os resultados de dois anos de investigação junto aos arquivos secretos russos: o crânio levado por oficiais do Exército Vermelho a Moscou, em 1945, é mesmo de Hitler.
A investigação é narrada com detalhes em A morte de Hitler. O livro revela a peregrinação em busca dessa verdade histórica tão sensível e, ainda hoje, objeto de disputa política. O texto intercala os bastidores da investigação com a reconstituição dos últimos dias do führer.
Testemunhos de nazistas que moravam no bunker no momento da morte de Hitler e dos próprios oficiais que os capturaram permitiram a reconstrução detalhada do que ocorreu naquele fim de abril de 1945. Esse trabalho de “formiguinha” enfrentou muita burocracia, resistência e dúvida. Brisard e Lana desconfiavam de que poderiam ser manipulados pela administração Vladimir Putin.
Lembrar ao mundo a extensão do poder da Rússia, capaz de derrubar o nazismo, e retomar o orgulho nacional ferido pelo contexto geopolítico, que coloca a seriedade do governo russo em xeque internacionalmente, seriam bons motivos para permitir à dupla provar o maior feito do Exército Vermelho no século 20.
ESPECULAÇÕES “Foi a oportunidade de encerrar definitivamente as especulações de que Hitler teria morrido octogenário ou nonagenário na América Latina. Minha ideia era obter a autorização dos russos para efetuar os testes científicos naqueles restos humanos. E de fazê-lo legalmente para poder publicar os resultados em uma revista científica internacional”, explica Brisard.
Em 2009, uma equipe de tevê norte-americana veiculou um documentário garantindo ter comprovado que os restos humanos guardados em Moscou não são de Hitler, mas de uma jovem mulher. Quem atestava o fato era o cientista Nick Bellantoni. Ele teria conseguido um pedaço do crânio para fazer as análises necessárias à comprovação. No entanto, autoridades russas sempre negaram ter autorizado o cientista a manipular o pedaço de osso ou a fazer testes. Bellantoni também negava ter roubado o fragmento, mas não revelava de onde veio a autorização e nem publicou o achado em revistas científicas.
No caso de Brisard e Lana, tudo está documentado, inclusive as autorizações para que realizassem os exames. “Se você perguntar quem nos deu as autorizações para nossa investigação, nós podemos fornecer todos os documentos e nomes”, avisa o jornalista.
A MORTE DE HITLER
De Jean-Christophe Brisard e Lana Parshina. Companhia das Letras, 352 páginas, R$ 59,90
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