O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2015 marcou estudantes de todo o Brasil e, de forma especial, alguns mineiros. O dia seguinte ao fim das provas foi diferente para Maria Cecília Viveiros e Santos, de 18, Jéssica Vancarla Rodrigues Souza, de 23, e Luiza Franqueira Leite, de 22. Feministas, as meninas consideraram um avanço a redação ter como tema a persistência da violência contra a mulher. Em Esmeraldas, na Grande Belo Horizonte, o poeta Diovani Mendonça não teve sossego depois que o projeto desenvolvido por ele, Pão e Poesia, virou tema de uma das 45 questões da prova de linguagens, códigos e suas tecnologias. Já três estudantes de Santa Luzia (Grande BH) ainda se recuperavam ontem de um trauma no sábado: por um erro de fiscais de prova, elas tiveram menos tempo para fazer o exame.
Leia Mais
Com fim do Enem, expectativa agora é pelo resultadoVeja o gabarito extraoficial do segundo dia de provas do Enem Mercadante defende tema da redação e comemora queda na abstenção do EnemCandidatos aprovam tema da redação e avaliam matemática como prova mais difícil Alunos que tiveram menos tempo de prova no primeiro dia do Enem em Santa Luzia poderão repetir o exameViolência contra a mulher é tema da redação do Enem 2015Nota do Enem será divulgada em janeiro, diz MECO Inep, organizador do Enem, reafirmou nessa segunda-feira que, por causa do erro, as alunas terão direito a repetir o exame em 1º de dezembro, com candidatos que farão o Enem PPL (pessoas privadas de liberdade). Ainda assim, as três cobram mais informações. “Quero saber primeiro se é possível, onde vai ser a prova, como vai ser e se prevalecerá a maior nota”, disse Júlia Íris. Até ontem à tarde, elas ainda não tinham recebido nenhuma comunicação do ministério. “Ainda estou abalada com toda a confusão”, conta Júlia Santiago.
REDAÇÃO Já a escolha do tema de redação (violência contra a mulher) foi motivo de comemoração entre muitas alunas. “O Enem colocou mais de 7 milhões de estudantes para pensar sobre a violência contra a mulher. Isso é importante, muda as estruturas”, disse a candidata Maria Cecília Viveiros. Em sua redação, a estudante, que pretende ser médica, problematizou a relação entre a persistência da violência contra mulher e a cultura machista.
A jovem lembra que ela e outras colegas, mesmo que não tenham sofrido casos de violência, podem ajudar a minimizar o problema ao denunciá-lo. Amiga de Cecília, Luiza Leite destacou que muitas mulheres temem denunciar, porque, embora sejam vítimas, se consideram responsáveis pela violência sofrida. “Muitas estão em relações abusivas e não sabem.” A mãe de Luiza, a funcionária pública Elizabeth Regina Franqueiro, de 54 anos, considerou relevante o debate gerado pelo tema. “Aprendi com minha filha a ser feminista, passei a andar de cabeça erguida. Tenho orgulho dela, como de toda essa geração que tem voz ativa”, afirmou.
Na avaliação da professora de português do Colégio Bernoulli Janaína Rabelo, as escolas deverão se aprofundar em temas relacionados às minorias e aos direitos civis. Para ela, tanto o tema da redação quanto as questões da prova de ciências humanas apontam que os alunos precisam construir repertório mais amplo, o que fará com que disciplinas como filosofia, sociologia e antropologia ganhem destaque nas salas de aula.
POESIA Embora não tenha feito a prova, o poeta Diovani Mendonça acabou virando centro das atenções no Enem.
O projeto começou em 2008, quando Diovani estava no distrito de Caracóis, em Esmeraldas, e, em uma conversa de bar com um empresário, explicou o seu plano de espalhar poesia no papel de pão. O empresário, dono de gráfica, doou o material, assim como outros proprietários de empresas que também foram voluntários, para imprimir 300 mil embalagens, com imagens de artistas plásticos, textos de poetas renomados e novatos. “Queria disseminar a poesia por diversos lugares”, afirma Diovani.
O projeto foi premiado em um concurso do Ministério da Cultura, expandido para salas de aula com cursos de sensibilização poética ministrados por Diovani, entrou em leis de incentivo à cultura, recebeu patrocínios de empresas e multinacionais e as embalagens de pão se espalharam por diversos bairros da periferia de BH, Sabará e até no interior paulista, totalizando quase 1 milhão de impressos..