O ato de vandalismo que na noite de segunda-feira destruiu uma das duas estátuas de tigres da Praça Rui Barbosa, também conhecida como Praça da Estação, no Centro de Belo Horizonte, está longe de ser um caso isolado. Dados da Guarda Municipal mostram que houve pelo menos 531 ocorrências contra o patrimônio municipal entre 1º de janeiro e 27 de julho de 2017, no último balanço disponível. A média de danos, roubo, furto e pichações em bens da cidade no período é superior a dois casos a cada dia. Somados os dados dos 12 meses de 2015 (1.349 ocorrências) e de 2016 (1.212), o total alcança 3.092 registros.
E o custo não é apenas financeiro, pois a destruição, em muitos casos, não pode ser reparada a curto prazo. No caso da estátua destruída nesta semana, por exemplo, a reconstrução nem sequer tem prazo. A imagem foi fabricada em resina, há 10 anos, por uma empresa contratada pela Prefeitura de BH, exatamente com o objetivo de proteger as esculturas originais, hoje expostas no Museu de Artes e Ofícios, também na Praça da Estação. A forma usada para a construção da réplica tem prazo de validade, como é comum nesses casos, de três a quatro anos, e já não pode ser reutilizada, segundo a administração municipal.
A presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), Michele Arroyo, lembra que um dos tigres originais da Praça Rui barbosa já havia sido alvo de vândalos, e destaca a dificuldade de reparar ataques do tipo. “O orçamento para a área de patrimônio cultural é pequeno e não temos uma planilha de custos, pois cada recuperação tem um valor diferenciado. Quando isso ocorre, precisamos de recursos dos governos ou apoio da iniciativa privada. A comunidade perde, financeiramente, perde por ficar sem seu patrimônio, perde por ficar sem a referência cultural do local”, lamentou.
QUESTÃO DE HONRA Pelo menos por enquanto não há previsão para que outra imagem seja colocada no jardim da Praça da Estação. Até por isso, descobrir a identidade do vândalo (ou destruidores) virou questão de honra para as instituições de segurança pública. Inquérito nesse sentido foi instaurado na 4ª Delegacia Regional Centro. Equipes analisam imagens de câmeras de segurança próximas ao local, na esperança de identificar o autor ou responsáveis pelos danos, que incluíram a retirada das presas da outra estátua de tigre do espaço. A Secretaria Municipal de Segurança Urbana e Patrimonial, responsável pela Guarda, também analisa imagens de seu sistema de videomonitoramento.
A destruição da estátua surpreendeu quem passou pela Praça Rui Barbosa. No local em que ficava o tigre sobrou apenas o pedestal que sustentava a réplica. A Centro-Sul, ao lado da Noroeste, é a região que registrou o maior número de casos de prejuízo ao patrimônio em 2017 entre as nove da capital, conforme divisão da prefeitura. Foram 81 ocorrências até 21 de julho, 14% a mais do que o total apurado em igual período de 2016. Considerados apenas os casos de dano a bens públicos, ocorreram 45 episódios, número 15% superior ao do ano anterior.
Chama a atenção, porém, o fato de algumas ocorrências serem registradas no mesmo local. É o caso da própria Praça da Estação. O local é alvo de constantes depredações. Em 2014, a mesma réplica destruída segunda-feira foi danificada por adolescentes, que atearam fogo à peça de resina.
O espaço conta com outras imagens que ajudam a contar a história da capital. Na praça há três conjuntos de estátuas. Um representa as quatro estações. Outro, dois leões e a dupla de tigres, da qual resta agora apenas um exemplar danificado. O terceiro, ninfas em uma fonte. São réplicas de um conjunto de 10 obras colocadas na praça nos primeiros anos da cidade e cujas versões originais, devido ao vandalismo, foram mandadas para lugar seguro.