A temporada 2017/2018 da febre amarela está próxima do fim, sendo considerada a pior epidemia da doença já registrada no país desde 1980, segundo o Ministério da Saúde. Somente em Minas Gerais, foram 528 casos confirmados da doença, com 177 mortes, outras 351 pessoas tratadas, além de 64 notificações, com cinco óbitos, ainda em investigação, num cenário em que dúvidas desafiam os especialistas. A Secretaria de Estado de Saúde (SES/MG) detectou 41 moradores do estado que apresentaram sintomas em um prazo de 30 dias depois de ter sido vacinados. Entre eles, três morreram. Os casos foram registrados como “inclassificáveis”, pois não foi possível apontar se as manifestações foram eventos adversos pós-vacinais (EAPV), que são ocorrências médicas indesejáveis relacionadas ao imunizante, ou se realmente os pacientes adoeceram devido à picada de mosquito transmissor da enfermidade. Junto a isso, há a confirmação da febre amarela em 16 pacientes com histórico de vacinação prévia (anterior a 30 dias), sendo que dois morreram. Especialistas ressaltam que esse tipo de caso pode ocorrer, já que nenhuma vacinação é 100% eficaz.
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INVESTIGAÇÃO A avaliação dos casos das pessoas com histórico de vacinação que tiveram a febre amarela confirmada por exames começou a ser feita no fim de fevereiro. A equipe formada por infectologistas, pediatras, epidemiologistas, enfermeiros e farmacêuticos fizeram uma investigação minuciosa, com análises de exames laboratoriais, entre outros, que confirmaram a doença. Na avaliação, eles levaram em conta os seguintes critérios: presença de sinais e sintomas compatíveis com a definição de caso suspeito de febre amarela, alterações laboratoriais compatíveis com a doença, resultado laboratorial reagente ou detectável para febre amarela, realizado em laboratório de referência, vínculo epidemiológico com casos confirmados e/ou epizootias (morte de primatas) nos municípios e/ou regionais de residência, e comprovação de vacinação para febre amarela através do cartão de vacina e/ou registro da vacina na unidade de saúde.
A SES explica que os pacientes desse grupo não desenvolveram anticorpos após a administração da dose da vacina, “o que pode acontecer com algumas pessoas em qualquer faixa etária”. O resultado, é que “se essas pessoas têm contato com o mosquito infectado, ficarão doentes, como ocorreu nesses casos”. Segundo a SES, “os representam 3% do total confirmado entre julho de 2017 e junho deste ano, porcentagem de acordo com a literatura científica, que descreve aponta eficácia da vacina contra a doença de 95% a 98%”.
RESPOSTA IMUNOLÓGICA A infectologista Helena Brígido, membro do Comitê de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), endossa o posicionamento da SES, e afirma que nem todas as pessoas ficam imunes às doenças mesmo sendo vacinadas. “As pessoas confundem muito a vacinação com a imunização. A vacinação é o ato de se vacinar, com a seringa ou, em alguns casos, com a gota na boca. Isso não significa que é pessoa esteja imune. A imunização é quando organismo da pessoa recebe a vacina, que é feita de vírus atenuado, e produz o anticorpo”, explicou.
Segundo a especialista, algumas hipóteses podem ser levantadas para o motivo de esse grupo de pessoas ter sido infectado, mas cada caso depende de uma investigação minuciosa. “Temos grupos que não têm a resposta imunológica esperada, não ficam imunes, como alguns idosos, portadores de HIV, pessoas com câncer, entre outros. É necessário verificar também o lote da vacina. Mas, a menos que se comprove que o lote estava vencido ou com defeito, não dá para saber ao certo o que aconteceu”, comentou.
Atualmente, a cobertura vacinal acumulada de febre amarela em Minas Gerais está em torno de 95,16%. Ainda há uma estimativa de 691.450 pessoas não vacinadas contra a febre amarela, especialmente na faixa etária de 15 a 59 anos de idade, que também foi a mais acometida pela epidemia de febre amarela silvestre ocorrida em 2017, quando foram computados 475 casos e 162 óbitos.
Prontuário
177
Total de mortes por febre amarela confirmadas nesta temporada
528
Total de casos da doença, sendo que 351 pacientes sobreviveram
41
Número de pessoas que tomaram a vacina e desenvolveram sintomas em até 30 dias
16
Pessoas que tinham tomado a vacina há mais tempo e contraíram a doença
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