
A professora de microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Jordana Coelho dos Reis acredita que diante do alto número de óbitos e novos casos diários, o lockdown é a medida que pode tentar conter o avanço indiscriminado da COVID-19.
“Considerando a dificuldade de acesso às vacinas e o lento processo, o lockdown talvez seja o sistema perfeito para a gente poder conseguir conter o número de casos. As medidas que foram tomadas até hoje não foram suficientes. É importante sim que a gente considere a possibilidade de um lockdown no país, se a gente não quiser chegar à triste marca de 500 mil mortos no Brasil, como está sendo estimado por vários cientistas”, afirma a professora.
Lockdown, isolamento e quarentena
Existe uma diferença entre lockdown, isolamento e quarentena. Segundo o dicionário de Cambridge, lockdown é uma situação na qual pessoas são impedidas de circular livremente em uma área devido a uma emergência. Ou seja, ela é adotada para manter de fato as pessoas em casa.
Na atual pandemia, os países que adotaram lockdown só permitiam a circulação de quem trabalhasse em atividades realmente essenciais. Caso contrário, só com uma autorização prévia das autoridades sanitárias, com direito a pesadas multas para quem desrespeitasse.
Segundo o virologista e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Flávio da Fonseca, lockdown é a manutenção das pessoas em casa de maneira compulsória a partir da definição de regras, só podendo sair das residências aqueles indivíduos que estejam dentro das regras que permitem o movimento.
“No Brasil a gente não tem o lockdown compulsório. A gente tem algumas ações que são semelhantes, como o estabelecimento de toques de recolher, de determinada hora a determinada hora é proibida a movimentação sem uma justificativa aceitável, mas isso não tem sido adotado de maneira ampla, só em períodos específicos, como a gente viu na Europa, por exemplo”, explica Flávio.
Já a quarentena é entendida pelo Departamento de Saúde dos Estados Unidos como um período em que pessoas são separadas e restringidas de circulação quando são expostas ao vírus. Durante esse período, observa-se se elas estão doentes para evitar uma possível propagação da doença.
O isolamento social, apesar de ser usado como a prática de ficar em casa mesmo não tendo sido contaminado, é entendido cientificamente como o método de isolar pessoas doentes daqueles saudáveis.
O fechamento de Araraquara
No início de 2021, o município de Araraquara, no interior de São Paulo, impôs um lockdown, no qual a circulação de pessoas só foi autorizada para trabalhar nas atividades essenciais ou buscar atendimento médico. Em 21 de fevereiro, a cidade fechou serviços essenciais, suspendeu a circulação do transporte público e montou blitze nas ruas para impedir as pessoas de saírem de casa. A cidade estava à beira de um colapso no sistema de saúde.
Um mês depois da adoção das medidas, Araraquara registrou queda de 50% no número de casos e diminuição de 39% na média semanal de mortes por COVID-19. Os leitos de UTI também estão sem filas de espera há 13 dias.
A experiência na Europa
Uma pesquisa do Imperial College de Londres, publicada na revista “Nature”, estimou que até 8 de maio de 2020, período do fechamento total foi adotado na Europa, 3,2 milhões de vidas foram salvas em 11 países do continente.
Um outro artigo, também divulgado na “Nature”, analisou o efeito de 1.717 políticas restritivas, incluindo o lockdown, adotadas na China, Coreia do Sul, Itália, Irã, França e Estados Unidos, de janeiro a 6 de abril de 2020.
Os cálculos indicaram que, se nenhuma ação tivesse sido implementada, haveria um aumento exponencial diário de 38% nas infecções. O chefe do estudo ainda afirmou que nesses seis países os bloqueios totais preveniram ou adiaram cerca de 62 milhões de casos de infecção.
Segunda onda na Europa
Durante a segunda onda de contaminações pelo vírus Sars-CoV-2 na Europa, que ocorreu nos últimos meses de 2020, o lockdown voltou a ser adotado em países que tinham iniciado a flexibilização. Em janeiro de 2021, com o surgimento de variantes, como a detectada no Reino Unido, os casos subiram novamente.
Como em grande parte da Itália, incluindo as cidades de Roma e Milão, que entraram novamente em lockdown. Na Espanha, todas as regiões, exceto Madrid, decidiram restringir as viagens durante o feriado da Páscoa. E, na Alemanha, Berlim interrompeu a flexibilização de restrições.
(*) Estagiária sob supervisão do subeditor Rafael Alves