
Uma cidade em luto e o novo governo
Álvaro Damião (União Brasil) tomará posse definitiva como prefeito na quinta-feira, 3 de abril, após o luto oficial
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Após a depressão econômica de 1929, ao argumentar que o estado deveria intervir na economia para tirar o país da recessão, o lorde inglês John Maynard Keynes, um dos maiores pensadores econômicos do século 20, retrucou quando questionado sobre eventuais problemas e dívidas legadas ao futuro: “No longo prazo todos estaremos mortos”. Quis dizer: resolvamos os problemas de estado do presente para alcançarmos o longo prazo.
Seres vivos têm prazo de validade curto. O fascínio e a angústia da condição humana é que, apesar da consciência de finitude, persiste a pulsão pela vida, o desejo e o direito de envelhecer, até sermos colhidos pelo inevitável. A trajetória do recém-eleito prefeito Fuad Noman (PSD) é um exemplo disso.
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Já as instituições, construções humanas, são desenhadas para serem longevas, para garantir à coletividade estabilidade, organização e certa continuidade de gestão e serviços desempenhados por indivíduos que passam. Seja pelo fim do mandato de representação, seja arrancados pela morte, todos passam. As cadeiras ficam.
Concluído o luto oficial de oito dias, o prefeito em exercício, Álvaro Damião (União Brasil), tomará posse definitivamente na próxima quinta-feira, 3 de abril, pela manhã no Legislativo municipal; e na sequência, deverá se reunir na Prefeitura de Belo Horizonte para um ato simbólico diante de secretários de governo, partidos e vereadores, deputados estaduais e federais aliados e apoiadores da sociedade civil.
Até aqui, Álvaro Damião evitou fazer mudanças na máquina administrativa – e inclusive postergou a composição de governo com indicações das bancadas municipais aliadas, em particular o PT, PcdoB e o Psol, que somam oito parlamentares – na expectativa da recuperação e retorno de Fuad Noman. Damião ainda estuda mudanças que vai empreender no primeiro escalão, mas após a posse são esperados anúncios de novos secretários e para os cargos de confiança do círculo imediato do chefe do Executivo.
Para além das questões internas de estruturação do governo, Álvaro Damião terá tempo para se organizar à frente da nova função. Pelo momento, o relacionamento com a Câmara Municipal de Belo Horizonte prenuncia calmaria. Em primeiro lugar, porque o governo não tem à vista projetos graves ou polêmicos a serem aprovados com urgência.
Para 2025, as matérias do Executivo mais importantes, entre as quais a reforma administrativa sancionada por Fuad Noman em dezembro de 2024 – foram aprovadas em esforço concentrado do Legislativo municipal naquele último mês do ano, a partir de acordo selado entre Fuad Noman, o líder do prefeito, vereador Bruno Miranda (PDT) e o então presidente da Câmara, Gabriel Azevedo (MDB). Em segundo lugar, porque enquanto exerceu a interinidade, Damião recompôs parte da base de sustentação do Executivo, que estivera com Fuad Noman no primeiro mandato: o PRD, o Solidariedade – com dois vereadores cada –, Janaína Cardoso (União), Cláudio do Mundo Novo (PL) e Marilda Portela (PL) já recuperaram as suas indicações e espaços no governo municipal.
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Ao mesmo tempo em que integrará ao governo o PT, o Psol e o PCdoB, Álvaro Damião vai afinar o diálogo com a bancada do PSD, de três vereadores, assegurando-lhes os espaços que já têm na gestão. E por fim, não menos importante, o presidente da Câmara, Juliano Lopes (Podemos) – agora na linha de sucessão –, tem declarado publicamente que considera superados os atritos que teve com Damião por ocasião da eleição da Mesa Diretora. Como na vida, política é assim: um dia após o outro. Entre interesses em conflito e acordos negociados, estão as tempestades e as calmarias que as sucedem. Atravessá-las é parte do jogo.
Recado
Ao concluir declaração à imprensa durante o velório de Fuad Noman (PSD), o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, deixou um recado a Álvaro Damião: “Álvaro deve esta gestão que se inicia hoje a uma única pessoa: ao Fuad”. Kassab afirmara antes: “O único pedido do PSD para Álvaro é que seja bom prefeito e tenha no Fuad a sua principal influência. Confiamos que possa ser esse bom prefeito. Ele sabe que pode contar conosco, eleitoras e eleitores para que seja um bom prefeito”.
Leitura
Interlocutores de Álvaro Damião interpretaram as afirmações de Kassab como cobrança para que sejam mantidos na gestão o núcleo duro de colaboradores de Fuad Noman. Pelo momento, tudo indica, contudo, que conscientes de que exerceram funções de confiança, Daniel Messias, chefe de gabinete de Fuad, e Jorge Luiz Schmitt Prym, secretário-geral da administração municipal, tendem a se antecipar e pedir exoneração. Interlocutores do prefeito consideraram o recado desnecessário, já que o PSD é legenda que está na base do governo e seguirá representada na PBH.
Social
Entre as secretarias que terão mudanças, parece certa a de Assistência Social, interinamente comandada por Josué Valadão. A pasta tende a ser comandada pelo PT. Houve quatro reuniões entre a bancada e Álvaro Damião, mas sem definição, pois havia a expectativa de retorno de Fuad Noman.
Secretaria de Governo
Já no exercício interino do cargo desde dezembro, Álvaro Damião vai confirmar Guilherme Daltro, nesta sexta-feira, no comando da Secretaria Municipal de Governo. Daltro foi chefe de gabinete de Álvaro Damião na Câmara Municipal e assumiu a pasta em substituição a Anselmo José Domingos, exonerado por ocasião da disputa pela presidência da Câmara Municipal.
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Coordenação
Quatro deputados federais disputam o apoio majoritário da bancada federal mineira para assumir a coordenação, atualmente exercida por Luiz Fernando Faria (PSD), que assumiu o cargo em 2023: Igor Timo (PSD-MG), Greyce Elias (Avante-MG), Newton Cardoso Jr. (MDB-MG) e Paulo Guedes (PT-MG). Não há normas que regulamentem a eleição do coordenador, posição cada vez mais cobiçada, em decorrência das emendas de bancadas:dos R$ 50,5 bilhões, R$ 39 bilhões são impositivas individuais e R$ 14,2 indicadas pelas bancadas de cada estado, em geral, a partir de um consenso.
Ruim de briga
Para evitar o impasse e a disputa interna, a bancada mineira optou pela criação de um Grupo de Trabalho que vai elaborar um regulamento estabelecendo como se dará o processo de eleição da coordenação e com que regularidade haverá troca de coordenador.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.