
Não procuro a Itália por gosto
A cultura romana se forma pela grega e a cultura dos bárbaros, na Idade Média, se funde e em muito com a romana
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Imaginem uma guerra que começa por um concurso de beleza. Começou no casamento de Tétis e Peleu, onde a Discórdia, que não havia sido convidada (e quem convidaria alguém com este nome?) vai assim mesmo e dá um presente (de grego): uma maçã de ouro para a mulher mais bela da festa.
A estratégia é brilhante: premiar a mulher mais bela em uma festa de casamento resultou na Guerra de Troia. O troiano Páris, juiz do concurso, elege Afrodite (Vênus). Esta, agradecida, retribui inspirando uma paixão por ele numa mulher casada, Helena.
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Páris rapta Helena, seu marido Menelau e os chefes gregos vão buscá-la e começa a guerra, que dura 10 anos.
A origem da cultura ocidental e das línguas latinas estão aí, em três livros: a Ilíada e a Odisseia de Homero, escritas em grego; a Eneida de Virgílio, em latim; e a Divina Comédia de Dante, em italiano. Quase 10 mil anos separam os livros de Homero do de Virgílio, um dos pilares do latim como língua literária, que glorifica o Império Romano.
A Odisseia retrata o retorno de Odisseu (Ulisses) a sua terra após a guerra. A Eneida é a viagem de volta do troiano Eneias em busca da Itália, onde fundará o Império Romano, que será liderado por seus descendentes.
Após uma estadia na poderosa Cartago, onde a rainha Dido, influenciada por Vênus, se une a Eneias, este recebe a ordem de Júpiter para seguir viagem e cumprir o destino de assumir a Itália. Interpelado por Dido enlouquecida de amor e fúria, Eneias responde: “Não procuro a Itália por gosto”. Ele parte, ela põe fim à própria vida.
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Ao chegar à Itália, Eneias desposa Lavínia, descendente de Latino (nome que dá origem ao latim como idioma e aos povos latinos). Após Virgílio, o latim dominou o Império Romano e a Idade Média como língua das elites aristocrática e religiosa.
Mil e trezentos anos depois da Eneida, Dante, na Divina Comédia, coloca Virgílio como personagem, homenageia o poeta tratando-o como mestre e torna-o seu guia pela viagem que fará pelo mundo da cosmogonia aristotélica-ptolomaica, que dominou o mundo cristão medieval, pelo inferno, purgatório e no final pelo paraíso, aqui conduzido por Beatriz. Dante rompe com o latim como língua literária, escreve seu livro no dialeto toscano (vulgata) da época, inventa palavras, divulga e instaura o idioma italiano.
O que tudo isso tem a ver com comida e vinho? Tudo. Os gregos levaram videiras para o sul da Itália, chamadas por eles de Enotria, a terra do vinho. Mais tarde, seu cultivo subiu para Roma. E muito da gastronomia italiana tem origem na grega.
A cultura ocidental veio da Grécia nos estilos arquitetônicos, na razão e na ciência a partir da filosofia e nas estruturas políticas que Roma aprimorou. A cultura romana se forma pela grega e a cultura dos bárbaros, na Idade Média, se funde e em muito com a romana. Um povo pode vencer militarmente e ser vencido culturalmente. Roma formou a cultura e as línguas ocidentais, inclusive o inglês de origem germânica, mas com a maior parte das palavras e da estrutura vindas do latim. E a Itália espalhou a religião cristã pela Europa e consequentemente para as Américas.
O uso de talheres foi levado para a corte da França pela fiorentina Catarina de Medici, Leonardo da Vinci inventou o guardanapo.
A cultura latina divulgou o prazer de comer, beber e o gosto pela estética, sendo referência mundial como a França e a Itália na gastronomia, no vinho, na moda e no design de automóveis.
Nós, latinos, herdeiros dessas tradições, dois mil anos após Eneias, enfim, podemos procurar a Itália com gosto.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.