Salve o copo Lagoinha!
Sucesso de público e crítica há quase 80 anos, ele está em todas as bocas de BH, transborda de histórias e saúda o reinado de Momo
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Siga noJá em ritmo de carnaval, a coluna cai no samba brindando o Rei Momo e seus súditos... num legítimo copo Lagoinha. Se é bom para o cafezinho e o popular “pingado”, ele agora saúda a cerveja gelada, abre alas para a pinga da boa, enfim, aceita de bom grado todas as novidades líquidas – alcoólicas ou não.
Ninguém perde por esperar, pois uma festança para celebrar os 80 anos do copo começa a ser preparada com grande antecedência, avisa Filipe Thales Bernardo, fundador do Viva Lagoinha, iniciativa de comunicação social para conectar pessoas da região por meio de ações ligadas à economia criativa. Em 20 de outubro de 2027, uma réplica gigante deverá “cobrir” o Pirulito da Praça Sete. A data de comemoração tem a ver com o código (2010) do produto.
Outra novidade, que começa ainda este ano com uma campanha, por iniciativa popular, está em pedir o reconhecimento do copo Lagoinha como patrimônio cultural imaterial de BH. Qualidades o objeto de design famoso tem de sobra. “É resistente, tanto que não quebra fácil, quando bate no balcão do bar, democrático e tem charme”, afirma Filipe Thales, embaixador do copo Lagoinha. Ele estreia, em breve, um podcast para contar histórias e ouvir moradores.
O caso de amor entre o copo e BH brotou e floresceu nas mãos do comerciante Joaquim Septimo Vaz de Mello, o Quim-Quim Vaz de Mello, nascido em 1891 – ainda no arraial de Curral del-Rei, seis anos antes da inauguração da capital. Foi o primeiro na cidade a comercializar o copo, o qual apelidou “Lagoinha” em homenagem à região que engloba os bairros Bonfim, Lagoinha, São Cristóvão (parte), Santo André (parte), Pedreira Prado Lopes, Senhor dos Passos, Colégio Batista (parte), Carlos Prates (parte) e Centro (parte).
Fabricado pela empresa Nadir Figueiredo, de São Paulo, o modelo “Americano”, de 190 mililitros, chegou às mãos de Quinquim Vaz de Mello em 1947. Daí, foi para as mesas da famosa região, palco e plateia da boemia belo-horizontina. E caiu na boca do povo.
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Em entrevista ao EM, o engenheiro Lúcio Eustáquio Vaz de Mello, filho de Quim-Quim, contou mais: “Meu avô, Coronel Guilherme Ricardo Vaz de Mello (1851-1918), também nascido em Curral del-Rei, era proprietário de terras onde hoje está o Parque Municipal (no Centro de BH) e depois abriu um armazém ‘de secos e molhados’, na antiga Praça Lagoinha, que ganhou o nome Praça Vaz de Mello, em 1935”.
O estabelecimento saiu de cena, assim como o espaço público original, com a construção do complexo viário. Em seu livro “Nossas ruas, nosso patrimônio (in)visível – Dicionário toponímico da região da Lagoinha”, o advogado especialista na área de patrimônio cultural e pesquisador Daniel Silva Queiroga acrescentou mais ingredientes:
“O coronel era proprietário da Chácara do Sapo (atual Parque Municipal Américo Rennê Gianetti), desapropriada pela Comissão Construtora da Nova Capital para ser a residência do engenheiro chefe Aarão Reis. Em 1909, na esquina da Rua Itapecerica com Avenida Dezessete de Dezembro, ele abriu o armazém Irmãos Vaz de Mello, que foi de sua propriedade e de seus filhos, onde comercializavam produtos no ramo de secos e molhados, atendendo hospitais, o Palácio da Liberdade e a população em geral.”
E aqui vai uma dica de Lúcio Eustáquio, filho de seu Quim-Quim: “O Lagoinha é ideal para tomar cerveja. Mantém a refrigeração da bebida por mais tempo, bem melhor do que o tipo tulipa. Acho que por isso caiu no gosto popular”. À dica de Lúcio, segue-se a nossa. Como a ‘muvuca’ do carnaval não tem limite, o Lagoinha cede lugar, nesses dias, em grandes espaços, aos copos de plástico e papel. Mas, claro, sem perder a majestade, pois vive cheio de histórias. Bom carnaval a todos!
Proteção de monumentos para...
“Vejam esta maravilha de cenário, é um episódio relicário, que o artista num sonho genial, escolheu para este carnaval...” O samba-enredo “Aquarela brasileira”, eternizado na voz de Martinho da Vila, canta as belezas do país de Norte a Sul. E serve de trilha sonora perfeita para a proteção, durante a folia, do nosso patrimônio cultural. Basta, então, ouvir e seguir as recomendações do Ministério Público de Minas Gerais. Veja algumas: os eventos devem ocorrer em áreas com estrutura adequada, evitando locais próximos a bens culturais protegidos; sempre que possível, equipamentos como barracas, palcos e caixas de som devem ser instalados a uma distância segura dos bens culturais e da rede elétrica.

... preservar a 'maravilha de cenário'
Após a folia, o local da festa deve retornar a sua condição original, com a limpeza e retirada de materiais (faixas e enfeites). Para dar tudo certo, prefeituras, Cemig e Corpo de Bombeiros devem fiscalizar as instalações elétricas e o uso de materiais inflamáveis, como botijões de gás e fogos de artifício. E mais: cabe ao poder público municipal definir rotas de trios elétricos e carros alegóricos que não causem danos ao patrimônio e garantam a segurança dos foliões. Com um dos carnavais mais animados do interior, Ouro Preto já recebe as estruturas de proteção (foto). Os tapumes vão ser pintados em homenagem ao cinquentenário do bloco Balanço da cobra.

Parede da memória
“Foi num carnaval que passou...eu sou aquele pierrô, que te abraçou...” Isso mesmo, o retrato aqui ao lado é de outros tempos, década de 1960, do desfile de uma escola de samba em BH. Quando a foto foi feita, o reinado de Momo já era “velho de guerra” na capital dos mineiros. Tudo começou em 1897, quando a turma saiu às ruas para festejar – meses antes da inauguração de BH, que só ocorreu em 12 de dezembro daquele ano. O tempo passou, e a alegria só cresceu na cidade. Na década de 1910, teve início o desfile das grandes sociedades, que saíam com carros alegóricos (na verdade, caminhões) pelas ruas. Vinte anos depois, a Escola de Samba Pedreira Unida, formada por moradores da Pedreira Prado Lopes, se tornava a primeira agremiação a desfilar em Belo Horizonte. Depois veio a Banda Mole, surgiram os bloquinhos e o Carnaval de BH se tornou referência no país.
Patrimônio Afro-Mineiro 1

Está aberta a dupla exposição “O som que ressoa em mim foi meu ancestral que tocou” e “Olhares de dentro: Patrimônio afro-mineiro em perspectiva”. Com curadoria de Alinne Damasceno e elaborada em conjunto com o Iepha-MG, Ministério Público de Minas Gerais e Fundação Clóvis Salgado, a mostra convida o visitante a fazer uma imersão na espiritualidade e ancestralidade da cultura afro-mineira. Da primeira, participam Massuelen Cristina (bordado e instalação), os fotógrafos Aziza Eduarda e Vitú de Souza, com vídeo performance de Suellen Sampaio, Virginia Dandara e Laiza Lamara. Até 22 de março, na CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais, que fica na Avenida Afonso Pena, 737, no Centro de BH. De terça a sábado, das 9h30 às 21h. Entrada gratuita.
Patrimônio Afro-Mineiro 2

Já a mostra “Olhares de dentro: Patrimônio afro-mineiro em perspectiva” traz 11 trabalhos do fotógrafo Matheus Soares Costa, de 22 anos, que conclui o curso de produção audiovisual na PUC Minas, em BH. Quilombola da comunidade Faceira, de Chapada do Norte, no Vale do Jequitinhonha, ele retratou tanto sua terra como outros locais, a exemplo do Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango, na capital, e Arturos, em Contagem. “Quero contar minha história, minhas origens, valorizar a cultura do povo negro, nossa arte e tradições”, destaca Matheus.
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Histórias de João Monlevade
Apaixonado por literatura e pela terra natal, o escritor e jornalista Erivelton Braz lança seu mais novo livro, “Entre Linhas”, reunindo crônicas ambientadas em João Monlevade. Em cada página, ele conduz o leitor a uma viagem pelas ruas, histórias e memórias, transformando o cenário e as lembranças em sensível narrativa. Na mistura de personagens reais e fictícios, Erivelton Braz reflete sobre a identidade cultural da cidade da Região Central de Minas. “A memória é fundamental para a criação da vida social, alicerce e acabamento de uma cultura marcada por suas diversas pessoas, personalidades e patrimônios, todos os atores de uma mesma história”, diz o escritor. Mais informações: www.rothacultural.com.br.