Sonatas de outono no coração mineiro
Cidades do interior guardam tesouros sonoros, os órgãos do século 18, que acompanham cerimônias religiosas e dão um toque magistral a belíssimos concertos
Mais lidas
compartilhe
Siga noO tempo de quaresma e semana santa, iluminado pelas cores do outono, parece expor da melhor forma possível, com arte e beleza, a alma de Minas. No cenário das cidades de passado colonial, se destaca a magnífica arquitetura das igrejas, onde músicas barrocas apresentadas por orquestras e corais “ganham” o coração de moradores e visitantes, ainda mais quando embaladas por órgãos musicais centenários.
Leia Mais
As turísticas Tiradentes e Diamantina se orgulham dos instrumentos cheios de história e também da realização de concertos. Na primeira, na Região do Campo das Vertentes, os olhos se encantam com o órgão de tubos com cinco metros de altura e caixa em estilo rococó presente na Matriz Santo Antônio. Foi comprado pela Irmandade do Santíssimo Sacramento em 1785, na cidade do Porto, em Portugal, sob o reinado de dona Maria I e transportado em 1788 para o Rio de Janeiro. De lá, veio em lombo de mulas, transpondo montanhas, para a Vila de São José do Rio das Mortes, atual Tiradentes.
Na sexta-feira (29), na Matriz Santo Antônio, há programa especial: Concerto de órgão e Show de luzes com roteiro narrado (voz gravada do ator Paulo Goulart). A apresentação será das musicistas Salomé Viegas (flautista), e Maria Amélia Viegas (pianista, cravista e organista). Fora do tempo da quaresma, há concertos às sextas e sábados, às 20h, com apresentação da Banda Ramalho.
Já em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, o encantamento está a cargo do órgão construído entre 1782 e 1787 pelo padre Manoel de Almeida e Silva. Mais antigo instrumento desse tipo integralmente feito no Brasil, ele completou, em 2024, uma década de “volta à vida”, restauro, por ter ficado mais de 70 anos emudecido. Desde sua reinauguração, o órgão pertencente à Venerável Ordem Terceira do Carmo integra a vida religiosa e cultural da cidade em missas, novenas, concertos e visitas guiadas, tendo como organista titular o diamantinense Evandro Archanjo. O célebre Lobo de Mesquita (1746-1805) foi o primeiro organista, função que exerceu até 1794.

À espera
A Catedral Basílica Nossa Senhora da Assunção, a Sé de Mariana, guarda, desde 1753, o órgão alemão Arp Schnitger, do início do século 18 e hoje o único fora da Europa. Parte dessa “joia rara” foi enviada à Espanha, para reparos nos someiros, caixas que armazenam e distribuem, para os tubos, o ar produzido pelos foles do órgão musical.
Mudo há quase dez anos, o instrumento deverá voltar a funcionar em dezembro. O reitor e pároco da Sé de Mariana, padre Geraldo Dias Buziani, e a organista Josinéia Godinho dizem “Amém” e aguardam a chegada das peças feitas em carvalho, entre 1700 e 1710, em Hamburgo, Norte da Alemanha.
Para ver e ouvir
1) Tiradentes, na Região do Campo das Vertentes
• Dia 29 de março, às 20h – Concerto de órgão e Show de luzes com roteiro narrado, na Matriz Santo Antônio. Fora da quaresma, há apresentações às sextas e sábados.
2) Diamantina, no Vale do Jequitinhonha
• Dia 21 de abril, às 9h – Concerto do Órgão Histórico Almeida e Silva/Lobo de Mesquita, na Igreja Nossa Senhora do Carmo, no Centro Histórico.

De volta à vida comunitária...
Um dos primeiros distritos de Ouro Preto, Cachoeira do Campo tem vida nova – e fica na Praça Filipe dos Santos, bem perto da tricentenária Matriz Nossa Senhora de Nazaré. Após anos de espera, a comunidade tem à disposição a Casa da Cultura, que ocupa o antigo Solar Pedrosa. Ele abriga memorial com a história local e exposição de objetos alusivos a fatos importantes ocorridos em Cachoeira do Campo, entre eles a Revolta de Filipe dos Santos ou Sedição de Vila Rica (1720) e Guerra dos Emboabas (1707-1709).

...após anos de "escoramento"
A entrega à comunidade do sobrado restaurado e requalificado estava prometida para as comemorações dos 300 anos da Capitania de Minas, em 2020, mas o serviço ficou em compasso de espera. Por sucessivas vezes, o EM denunciou a situação e cobrou das autoridades o término da obra. Dava tristeza ver o Casarão Pedrosa escorado, vazio, sem serventia. Segundo a Prefeitura de Ouro Preto, que desapropriou o imóvel, houve troca do telhado, refeitas a estrutura hidráulica e a parte elétrica, além de instalação de equipamentos de acessibilidade. A característica arquitetônica foi preservada, a exemplo das esquadrias, forro, piso e janelas.

Parede da memória
As belas lembranças permanecem na cabeça dos antigos moradores, e o retrato do passado, em livros e quadros na parede. Às novas gerações, resta pesquisar, ouvir e preservar os monumentos – e entender mais sobre sua história. Minas já perdeu muitas das suas construções coloniais, entre elas a Matriz Nossa Senhora da Conceição, em Piranga, na Zona da Mata. A imponente matriz dedicada à padroeira local foi demolida em 1966, para construção, no lugar, de uma em estilo moderno. Fica aqui o registro para que novas agressões não ocorram e que a conservação esteja na ordem do dia para se evitarem futuros danos ao patrimônio cultural do país.

Mineiro em SP
Belo-horizontino com raízes em Ouro Preto, o frei Evaldo Xavier Gomes, da Ordem dos Carmelitas, foi empossado, no sábado (22), membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), em cadeira cujo patrono é o Visconde de Taunay (1843-1899). Na solenidade, o religioso conhecido em BH pela atuação na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Região Centro-Sul de BH, foi saudado pelo professor Luiz Eduardo Pesce de Arruda. Fundado em 1894, o IHGSP fica no Centro Histórico da capital paulista. Atualmente, frei Evaldo é interventor, nomeado pela Santa Sé, no tradicional Mosteiro de São Bento (SP), fundado em 1598.

Casa da Glória
“Passos de uma casa” é o nome do documentário produzido pela TV UFMG, com apoio da Embaixada dos Estados Unidos, sobre a Casa da Glória, um dos monumentos arquitetônicos mais famosos de Diamantina. A estreia será em 4 de abril, às 18h, no Teatro Santa Isabel, no Centro Histórico da cidade do Vale do Jequitinhonha. Com duração de 18 minutos, o filme conta a história desse patrimônio cultural da cidade que foi o maior centro de extração de diamantes no mundo no século 18. Abrigando desde 1979 o Instituto de Geologia Eschwege, administrado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o imóvel com estrutura em madeira, que tem o nome de sua primeira moradora, está fechado para obras desde 2020, sem data para reabertura. Direção e montagem de Olívia Resende, que também fez roteiro e pesquisa com Ana Fatorelli.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Curso gratuito
Estão abertas as inscrições para o curso Bibliotecas: memória do mundo. Totalmente gratuito e 100% online, ele é promovido pelo governo de Minas, via Secretaria de Estado da Cultura e Turismo, Associação de Amigos da Biblioteca Pública Estadual e Cemig. A inscrição pode ser feita no site oficial.