Os vários sinais da viagem de Lula à Ásia

Presidente desembarcou em Tóquio nesta segunda-feira acompanhado de uma grande comitiva de parlamentares e empresários. Do Japão ele seguirá para o Vietnã. A viagem embute recados que envolvem o jogo geopolítico e, ainda, gestos para solucionar os problemas domésticos do governo com o Congresso

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TÓQUIO – O desembarque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Japão é carregado de sinais para fora do país, com o esperado redesenho do tabuleiro do poder global a partir do retorno de Donald Trump à Casa Branca, e também para dentro, num momento em que o governo precisa do Congresso Nacional e, especialmente, do Centrão para aprovar propostas que podem definir os quase dois anos que restam desta terceira passagem dele pelo Palácio do Planalto.

No front da geopolítica, com a visita de Estado de quatro dias ao Japão e a viagem que fará na sequência ao Vietnã, Lula quer indicar que o Brasil não deseja ficar dependente de Estados Unidos, China e Rússia e que pretende construir parcerias estratégicas com outros players relevantes. “Queremos mostrar que na Ásia temos outras opções de parcerias para além da China”, diz, sob reserva, um graduado integrante do governo com acesso ao gabinete presidencial.

Trata-se de um gesto importante neste momento em que Trump sinaliza que pode diminuir a tensão dos Estados Unidos com Pequim e Moscou e, quem sabe, até conduzir Washington a aceitar redividir o globo em zonas de influência que atendam, de alguma forma, os interesses das três grandes potências. Se isso acontecer, até para garantir altivez na relação com a China, aliada do Brasil nos Brics e principal parceira comercial do país por dez anos consecutivos, será preciso, cada vez mais, mostrar que não há dependência e que Brasília tem outras relações importantes naquele pedaço do planeta. De Tóquio, Lula seguirá para Hanói, capital do Vietnã, país do sudeste asiático em franco crescimento e que o Brasil deve elevar à condição de “parceiro estratégico”.

Com o Japão, para além de comemorar os 130 anos de relações diplomáticas, o governo brasileiro quer recuperar o espaço perdido especialmente nas relações comerciais. Hoje, o país asiático está na nona posição no ranking de investidores estrangeiros no Brasil. O fluxo comercial bilateral foi de US$ 11 bilhões de dólares em 2024, quase metade do maior patamar já registrado, e o entendimento do Planalto e do Itamaraty é o de que esses números podem ser ampliados no curto e no médio prazo.

Na manhã desta terça em Tóquio (noite de segunda no Brasil), o presidente, a primeira-dama Janja da Silva e outros integrantes da comitiva, que inclui mais de uma dezena de ministros e os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, serão recebidos no Palácio Imperial pelo imperador Naruhito e pela imperatriz Massako. À noite, Naruhito oferece um banquete à comitiva.

Tradicionalmente, o Japão recebe uma visita de Estado a cada ano, mas desde a pandemia havia suspendido os convites – o último convidado foi Donald Trump, na reta final de seu primeiro mandato. Lula é o primeiro a ser recebido desde então, em um protocolo que inclui diversas honrarias. No programa há, ainda, encontros com o primeiro-ministro japonês, Shigeru Ishida, no cargo desde outubro passado.

Acompanham Lula em Tóquio mais de 100 empresários brasileiros, que participarão com o presidente de um fórum econômico que reunirá também representantes do governo e de companhias japonesas. Uma das prioridades da agenda na visita é destravar as negociações para que o Japão possa importar carne bovina brasileira. O Brasil é o maior exportador mundial do produto e o Japão, um dos principais importadores (compra, principalmente, dos Estados Unidos e da Austrália), mas a carne bovina produzida no Brasil tem 0% desse mercado, que gasta nada menos que US$ 4 bilhões anuais.

Não por acaso, há previsão de que na extensa lista de empresários que acompanham o presidente em Tóquio esteja o nome de Joesley Batista, um dos donos da J&F, controladora da JBS, maior produtora de proteína animal do planeta.

Hoje, o Japão já compra frango e carne suína do Brasil – esta, apenas de produtores de Santa Catarina previamente certificados. Os apelos para que as barreiras à carne bovina sejam derrubadas serão feitos, mas o governo não tem grandes expectativas de que isso possa ocorrer imediatamente.

No máximo, o que deve acontecer é um gesto político dos japoneses no sentido de acelerar o processo que atravanca a possibilidade de o Brasil exportar – entre as exigências está, por exemplo, a certificação de que o país está livre da febre aftosa, sem necessidade de vacinação. Para que a liberação saia, o Japão precisa, antes, enviar uma missão técnica ao Brasil para inspeção sanitária.

Afago político
Em outra frente, igualmente importante para o governo, Lula aproveita a viagem à Ásia para fazer afagos políticos de olho na relação com o Congresso Nacional. Além de Hugo Motta e Davi Alcolumbre, ele trouxe a Tóquio os antecessores da dupla no comando das duas casas do Congresso, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, e vários outros parlamentares, com predominância evidente do Centrão. No desembarque, no aeroporto de Haneda, Lula, Motta, Alcolumbre, Lira e Pacheco posaram lado a lado, sorridentes, para uma foto oficial (veja acima).

Na longa jornada de mais de 22 horas até a capital japonesa – primeiro de Brasília à americana Houston e depois de Houston a Tóquio, com troca de avião –, o presidente gastou tempo conversando com todo mundo, numa tentativa de reverter a impressão reinante entre congressistas de que tem se dedicado pouco ao diálogo. Parlamentares ouvidos pelo PlatôBR disseram que ele se esmerou na “resenha” e esbanjou simpatia.

O esforço tem por objetivo melhorar uma relação que, para o governo, pode render resultados práticos relevantes – maiores, aliás, do que qualquer saldo diplomático que possa sair das reuniões com os japoneses. Do bom relacionamento entre o Planalto e o Congresso depende a aprovação de propostas que podem definir o rumo desta reta final do terceiro mandato de Lula – e, por óbvio, projetar quem ganha, quem perde, quem sobe e quem desce nas eleições de 2026. Entre risos, fotos e desconfianças, do outro lado do mundo também há lugar para que o jogo de Brasília seja jogado.

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