'Vergonha se levou seu filho para a Disney, mas não para as cataratas'
John Rodgerson, CEO da Azul, deseja ensinar as pessoas a conhecer mais o Brasil
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Siga noSÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Como praticamente todas as empresas aéreas do país, a Azul sofreu em 2024 e precisou fazer um grande ajuste nas dívidas e em sua cadeia operacional. Além disso, teve o balanço diretamente afetado pelo descontrole do câmbio e das chuvas no Rio Grande Sul. Para 2025, no entanto, a companhia quer acelerar o ritmo de expansão dos negócios e pretende mudar o foco, adotando um novo slogan.
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Nesta terça-feira (25/3), a aérea lança uma grande campanha de marketing em que abandona o lema "O Céu é Azul" e adota "O Céu do Brasil é Azul", cujo jingle será cantado por Alceu Valença e pela cantora Céu. A proposta é exaltar a brasilidade e reforçar a aposta no país.
O renascimento, como prefere John Rodgerson, CEO da companhia, é uma forma de dar novo significado aos 16 anos de atuação no Brasil. No radar ainda está uma possível fusão, processo iniciado em janeiro com a assinatura de um memorando de entendimento com a Abra, dona da Gol, que, se cumprido, criará a maior companhia aérea do país.
"O que nós entregamos para os nossos clientes nos últimos anos não foi o que queríamos, porque estávamos tentando sobreviver. Agora podemos levantar nossas cabeças e olhar para a frente. Tem muita coisa bacana acontecendo", diz Rodgerson à reportagem.
Localmente, a Azul passou a investir no turismo regional brasileiro, se tornando a companhia oficial de eventos como o carnaval de Recife, as festividades de São João no Nordeste e o tradicional Festival de Parintins, no Amazonas.
PERGUNTA - Como surgiu a proposta de mudar o slogan?
JOHN RODGERSON - Nós trabalhamos junto com a agência África, a maior agência do Brasil. Eles disseram 'gente, vocês não fazem ideia do que vocês representam para o Brasil'. Tem muito gringo aqui dentro da Azul, mas eles mostraram que nós temos brasilidade. O fato é que estamos em todos os cantos do Brasil e para nós o Brasil é muito maior do que pensam nossos concorrentes, que focam apenas naquele triângulo Rio-São Paulo-Brasília. Essa campanha foi feita para abraçar quem somos. Nós somos o Brasil e vamos abraçar os destinos. A nova música tem muito a ideia do 'olha para cima, levanta a cabeça e sonha'.
Nos últimos cinco anos nós ficamos com nossas cabeças baixas, por causa da Covid, do câmbio, o combustível, a guerra na Ucrânia. Agora é a hora de levantar, ser mais leve, ter orgulho de viajar e de amar o Brasil.
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P - Esse reposicionamento marca também o futuro com uma possível fusão com a Gol?
JR - A fusão com a Gol deve acontecer em um ano. Essa campanha é muito mais sobre a Azul neste momento. Não pensamos muito na Gol para essa campanha. É mais sobre a Azul e para levantar a gente. De certa forma, esse é um renascimento da Azul. Após 16 anos voando, nós estamos renascendo.
P - Em que estágio está a fusão neste momento?
JR - Nós estamos em espera. A Gol precisa sair da recuperação judicial e não podemos fazer uma transição quando uma empresa está prestes a sair da RJ. Isso deve acontecer em junho ou julho. Existe vontade de ambos lados.
Fora isso tem a reestruturação de vocês também.
Estamos no final desse processo. Teremos um follow-on [oferta pública de ações realizada por uma empresa que já tem capital aberto na Bolsa] , que sempre foi parte do plano. Os investidores terão direito de preferência por causa da conversão dos bondholders [detentores de títulos de dívida]. Acredito que em 30 de abril termina tudo.
P - Além da queda do dólar, que foi um pouco surpreendente neste início de ano, o preço do combustível também caiu. Como a Azul se beneficiou desse ciclo?
JR - Nossas aeronaves, a dívida, é tudo dolarizado. Essa queda representa mais do que US$ 3 bilhões de dívida que a gente elimina no balanço. O combustível, com a possível paz na Ucrânia, está desacelerando e caiu 15% desde o início do ano. Isso abre oportunidade para voar mais e ter mais passagens com preços melhores para nossos clientes.
Isso também ajuda a gente a controlar os destinos que queremos voltar a operar ou parar. Só neste ano, anunciamos rotas para o Porto e Madrid, saindo de Recife e São Paulo. Anunciamos também Bariloche, Mendoza. A Azul está de volta, crescendo e com novas aeronaves que vamos ainda receber este ano.
P - O setor ainda está passando por altos e baixos. Qual será a estratégia para manter a operação num nível aceitável sinalizar positivamente para o mercado?
JR - O balanço no fim do ano foi feio. O nosso resultado operacional foi muito bom, sempre foi, mas o balanço ficou feio por causa do câmbio. Teremos algum vento traseiro agora com dólar e combustíveis mais baixos. Também temos novas aeronaves que estão chegando da Embraer, elas economizam muito mais combustível e voam em mais horas no dia. O nosso plano para este ano é continuar destinando as aeronaves da nova geração e investir nos nossos outros negócios.
A Azul é a segunda empresa que mais vende pacotes de viagens na CVC. Além disso, nós temos nosso cartão de crédito, a Azul Fidelidade, e também temos dois novos cargueiros. Se você está comprando alguma coisa hoje na Amazon ou no Mercado Livre, é bem capaz que está chegando na sua casa através de uma aeronvave da Azul. Nós temos receita vindo de outros negócios, é diferente do passado, e isso nos ajuda a seguir a expansão.
P - A pandemia, de certa forma, ajudou a ampliar essas fontes de receita, não? Essa expansão do e-commerce aconteceu em decorrência dos fechamentos...
JR - É fato que, quando você está ferrado, você pensa diferente também. Então, quando nós não tivemos receita entrando dos passageiros, a gente focou muito no Azul Cargo Express. Depois, quando voltamos a voar, teve muito brasileiro rico que queria voar dentro do Brasil. Com o home office, muita gente agora pega um fim de semana que começa quarta-feira à noite e vai trabalhar quinta e sexta de forma remota, da praia em Porto Seguro, em Porto de Galinhas, em Gramado, em Fort Lauderdale... são opções que não existiam antes, a flexibilidade do home office ajudou o brasileiro a viajar mais dentro do seu próprio país e isso mudou o jogo.
Muito da nossa nova campanha é para ensinar as pessoas a amarem mais o Brasil, conhecer mais o Brasil. Eu sempre falo que é uma vergonha se você já levou seu filho para a Disney três vezes, mas não para ver as cataratas. E se você levou seu filho para Nova York, mas nunca viu o Amazonas. É uma vergonha se você já foi para Portugal ou para Buenos Aires, mas ainda não foi para Noronha.
Eu não quero falar de política, mas um pouco dessa coisa que os Estados Unidos estão importando sobre si, o Brasil tem que fazer isso. O Brasil tem que viajar dentro do Brasil, tem que gastar dentro do Brasil, tem que amar mais e conhecer mais destinos e investir mais dentro do Brasil. O Brasil ainda tem muito pouco viajante de fora. A maior parte deles são argentinos que vão para Floripa e Rio. Mas nós devemos começar a convidar o mundo para conhecer as belezas do Brasil.
P - Você disse que não queria falar de política, mas o efeito Trump fez o dólar cair e na Argentina, com a política econômica de Javier Milei, registramos a entrada recorde de argentinos no país. Apesar de todo o cenário internacional ainda estar muito caótico, você acredita que o Brasil se beneficiou nesse último ciclo?
JR - Eu acho que sim. O Brasil tem um déficit comercial com os Estados Unidos. Se colocar imposto e tarifa para os outros países, isso vai ajudar o Brasil. México e Canadá exportam muito mais do que importam dos Estados Unidos. No Brasil é o oposto. Esse foi um ponto que fez o câmbio desvalorizar, porque começaram a olhar os países que têm um déficit com os Estados Unidos, e o Brasil é um desses. Outra coisa é que eles estão olhando para a Ásia e outros lugares do mundo.
O Brasil é um país gigante, que tem tudo para ajudar no futuro do mundo. Tem uma população jovem, tem minerais que são cruciais, e é o país que pode alimentar o mundo. Tem as melhores praias, tem portos, é um país pacífico e tem muito para ganhar neste momento do mundo.
P - Internamente, o cenário macro aponta bons números, como o crescimento PIB, mas o conflito político ainda é muito forte e perdura há pelo menos dez anos. Como é equacionar todo esse cenário de volatilidade, não só econômica, mas dentro do próprio setor aéreo?
JR - O PIB foi revisto para cima três vezes no ano passado e o desemprego hoje é o mais baixo. O Brasil tem muitos desafios e ainda é um país muito verde, onde tem muita oportunidade para crescer e fazer coisas diferentes. O brasileiro viaja muito menos do que o mexicano, muito menos do que o chileno, muito menos do que o colombiano. Essa é a nossa oportunidade para o futuro. É preciso olhar isso com mais cuidado e investir aqui.
P - Nesse mês, a Azul anunciou a suspensão de voos em algumas cidades. Vocês pretendem retomar essas rotas em algum momento ou é uma decisão de médio a longo prazo?
JR - Com o dólar mais alto e a pressão dos combustíveis não estava dando certo [operar essas rotas]. A gente já deu sinais para retornar em duas ou três dessas cidades e começamos a vender bilhetes de novo. Temos que sempre ajustar, isso faz parte do nosso negócio. Todo mundo fala que a Azul fechou 12 cidades, mas esquece que nós abrimos rotas em mais de 15 cidades nos últimos 18 meses. Isso é natural. Nós estamos servindo hoje 40 cidades a mais do que estávamos em 2019. Alguns mercados dão certo, outros não. Nos últimos cinco anos, a Azul cresceu 68%.
P - Fazendo um exercício de futurologia, se não tivermos um novo desastre climático como o que atingiu o Rio Grande do Sul, o dólar seguir caindo e o combustível também, a Azul vai trazer um balanço melhor ou o desafio da reestruturação é muito grande?
JR - Nós eliminamos mais ou menos US$ 1,3 bilhão de dívida através desta renegociação que fizemos com os credores, estamos convertendo isso para equity [patrimônio líquido], isso ajuda bastante. Só com o dólar foi um reajuste de mais US$ 3 bilhões. Estamos falando em mais ou menos US$ 8 bilhões de dívida que saem do balanço só por causa da renegociação e também da melhora no câmbio. Isso faz uma grande diferença. No ano passado nós tivemos que renegociar e sobreviver. Agora que sobrevivemos, podemos focar nosso negócio.
RAIO-X | JOHN RODGERSON
Formado em finanças pela Brigham Young University, é um dos fundadores da Azul e CEO da companhia desde 2017. Antes de ocupar a posição, Rodgerson foi vice-presidente financeiro e diretor de relações com investidores da Azul, sendo responsável pelas áreas de planejamento e análise financeira, tesouraria e contabilidade. Também ocupou o cargo de diretor?presidente da subsidiária operacional da companhia, a Azul Linhas Aéreas Brasileiras S.A., entre agosto de 2019 e outubro de 2022. Antes de ingressar na Azul, foi diretor de planejamento e análise financeira na JetBlue Airways, além de ter trabalhado para a IBM Global Services.